Menstruação: vilã ou heroína?

Não é incomum ouvir, todos os dias, mulheres dizendo que não gostam de menstruar, e que menstruar é sinônimo de sofrimento. Vamos compreender melhor esse sentimento e as razões por trás dele?

“Durante séculos, o ciclo menstrual tem sido visto com repulsa ou desprezo, como algo sujo, um sinal de pecado, e sua existência reforçou uma posição inferior para a mulher numa sociedade de dominação masculina. A menstruação ainda é vista atualmente como uma desvantagem biológica, que tornaria as mulheres profissionais emotivas demais e pouco racionais ou confiáveis.” Esse parágrafo foi retirado do livro Lua Vermelha de Miranda Gray e vou partir dele para iniciar.

A menstruação é muito mais que um sangramento, a menstruação simboliza o início de um ciclo, e é um sinal importante sobre a saúde da mulher, porque significa um ciclo ovulatório. Ou seja, a saúde dessa mulher está plena, pois estamos conseguindo ter ovulação (a liberação de um óvulo), e posteriormente menstruação. A menstruação geralmente acontece 14 dias após a ovulação, e ocorre pela descamação do endométrio (camada mais interna do útero). A presença de ciclos regulares, com ovulação e menstruação, torna essa mulher cíclica e potente em todas suas fases. 

Mas se existem todas essas vantagens em ter um corpo que sangra, porque ouvimos desde a nossa primeira menstruação que é um sofrimento menstruar?

Muitas meninas não sabem o que é menstruação, porque não são ensinadas sobre as fases do ciclo menstrual, e, em casa, as mulheres de sua família também não tiveram tais ensinamentos. Seja porque esse conhecimento não foi passado por ser um tabu, seja porque nas escolas o conhecimento também é pouco transmitido, e quando acontece, ele vem sob uma ótica masculina. O fato é que esse conhecimento, portanto, se torna escasso e precisa ser aprendido de qualquer maneira. E isso gera desconforto, inadequação e até mesmo repulsa.

Em muitas sociedades ancestrais o sangue menstrual era visto como “energia sagrada”, apresentado pelo corpo feminino saudável, portanto, usar a menstruação como algo pejorativo, que tivesse que ser reprimido, que precisasse ser escondido, é também uma forma de marginalizar o corpo de uma mulher que sangra, principalmente no seu momento mais sagrado de menstruar. 

Além disso podemos dizer que associações com impurezas, sujeira e/ou passível de controle também são estratégias de mercado para indústria de itens de higiene menstrual e indústria farmacêutica que não são acessíveis a todas a mulheres, e acabam por marginalizar ainda mais mulheres com poucos recursos financeiros.

E isso se estende também no ramo da medicina, a medicina Ocidental é uma medicina criada por homens, que vê o corpo da mulher como “cheio de inconformidades”, ou seja, até mesmo eventos fisiológicos, por falta de referência no corpo masculino ou falta de estudos, são tratados como doença. 

Até os dias atuais diversos tratamentos sobre tudo que envolve o ciclo menstrual baseiam-se na supressão do ciclo menstrual e da menstruação. Por exemplo: está sangrando muito, pílula para não menstruar, não está menstruando, pílula para “regular” o ciclo, está com cólicas menstruais, pílula para suprimir o ciclo e reduzir a dor, tem “TPM (Tensão Pré-Menstrual)”, pílula para suprimir o ciclo e a menstruação, e, consequentemente, melhorar os sintomas. Mas será mesmo que estamos tratando? Ou estamos mascarando um problema maior que não estamos sendo capazes de diagnosticar e de tratar adequadamente.

Seria simplista demais acreditar que uma mulher que menstrua, ovula e tem, em cada fase do ciclo menstrual, um ou mais hormônios predominantes, em altos e baixos (em uma dança cíclica), teria ao longo de um ciclo inteiro, o mesmo raciocínio mental, os mesmos sintomas físicos e os mesmos comportamentos. Dessa maneira, podemos concluir que suprimir a menstruação não seja o melhor caminho para tratar seus possíveis desconfortos.

Em um mundo criado para as necessidades masculinas, seria um pouco ilógico também pensar ser “fácil” ser uma mulher que sangra? Enquanto suas necessidades básicas pouco são atendidas: como exemplo, o direito a higiene e à saúde menstrual, o direito de apresentar sintomas pré-menstruais, e por consequência, nessa fase não ter o rendimento “esperado” como nas fases anteriores, e assim por diante…

Então me diga, será mesmo a menstruação a vilã, ou seria ela a nossa heroína? capaz de resgatar em todas as mulheres a busca pela sua saúde plena, pelo seu direito de viver as fases do ciclo menstrual, entre “altos” e “baixos”, respeitando o potencial de cada uma delas, inclusive o potencial de menstruar, de se recolher e de se cuidar com mais amorosidade, em um momento que exige esses cuidados de saúde e auto-observação.

Deixo minhas reflexões e um abraço para todas as leitoras.

 

 

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