Saúde feminina e a experiência na Amazônia

Falar de menstruação é falar da base de tudo: do corpo que pulsa, das fases que se repetem, do mundo interno que se renova mês após mês, independentemente de onde a gente viva. Mas, se o ciclo é o mesmo, o acesso à assistência ginecológica ainda está longe de ser igual quando olhamos para a Amazônia.

Pelo segundo ano, tive o privilégio de estar em missão na região Amazônica. Desta vez subimos o rio Negro e Solimões até o município de Beruri, no estado do Amazonas.

Característico da região, notei mulheres com muitos filhos, um início sexual mais precoce, muita gravidez na adolescência e ainda uma violência sexual dentro das famílias (agressor/provedor). 

Conheci  parteiras e, em especial nesta última localidade em que aportamos, havia um hospital e a rede básica do SUS estava bem consolidada.  A carência maior estava no encaminhamento para especialistas, em se ter acesso  a  cirurgias e exames de imagem.

A distância entre comunidades e centros de saúde, a falta de profissionais especializados, a escassez de absorventes e até de informações básicas fazem com que algo tão natural se torne, para algumas mulheres, um peso desnecessário.

Na Amazônia, a vida é medida em rios. Tudo flui ou atrasa conforme a maré, conforme o tempo de navegação, conforme a distância até a próxima cidade. E a menstruação, claro, não espera o barco da saúde chegar.

É comum que comunidades passem meses sem atendimento ginecológico.  Algumas senhoras compareceram ao atendimento porque nunca tinham visto um ginecologista, não por terem queixa.  E apesar da rede de saúde nesta localidade, muitas mulheres só conseguem realizar preventivos, exames ou receber orientações quando as unidades fluviais de saúde aparecem. E esse intervalo nem sempre acompanha os ritmos do corpo.

Na prática, isso significa que dores são ignoradas, infecções não são tratadas, métodos contraceptivos são usados sem acompanhamento e dúvidas sobre o ciclo são passadas de mãe para filha com o que se tem, não com o que se deveria ter.

E, mesmo assim, elas seguem. Porque a base não muda: o corpo pede cuidado, e a força feminina é teimosa.

E não, isso não é apenas sobre conforto. É sobre dignidade. Sobre saúde. Sobre o impacto dos ciclos na vida emocional, física e social. Sobre direitos básicos.

Existem iniciativas incríveis na região: barcos que funcionam como clínicas, agentes de saúde que navegam por horas para visitar comunidades, projetos que distribuem absorventes e promovem educação menstrual. Tenho orgulho de ter feito parte  e permanece a vontade de fazer ainda mais. 

Quando esse cuidado chega, algo floresce. Saúde também em forma de autonomia, autoestima, pertencimento.

A ginecologia deixa de ser uma urgência e passa a ser o que deveria sempre ter sido: um acompanhamento natural da vida.

 

 

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