Minha relação com o problema social que representa a precariedade menstrual e minha atuação para garantia da dignidade menstrual de meninas em idade escolar, começa a partir de uma investigação das causas de evasão da escola em que atuei como gestora por 10 anos.
Sou professora da Rede Municipal de Camaçari/BA e fui convidada a assumir a gestão de uma escola localizada num bairro da periferia da cidade, em 2010.
Diante de um cenário preocupante de alto índice de evasão escolar, reprovação e média muito baixa na Prova Brasil, fizemos inúmeros estudos para levantamento das principais causas, sobretudo, da evasão escolar que, juntamente da baixa frequência são ingredientes para reprovação e baixo desempenho nos estudos.
E o que fazer para combater a evasão? Era uma pergunta que nos fazíamos todos os dias ao cruzar as vidas dos alunos na escola.
Conhecer as causas da evasão e suas trajetórias se tornou uma missão que motivou a formulação de diversos instrumentos para o acompanhamento da vida escolar dos alunos e alunas da Escola Municipal Cosme de Farias.
Criamos uma ficha de monitoramento das faltas, traçamos perfis por gênero, cor e classe social, entramos em contato com as famílias constantemente.
Ano após ano, os instrumentos e investimentos feitos por toda equipe escolar não davam conta de atingir quem mais precisava da escola: meninas em sua maioria pretas e com altos indicadores de vulnerabilidade social e financeiros.
Em 2014, com os dados do monitoramento das ausências escolares em mãos, a secretária escolar verificou nos gráficos que as datas das ausências se repetiam mês a mês entre as meninas, indicando um período semelhante todos os meses. Esse fato chamou-lhe a atenção e ela mesma levantou a suspeita que nenhum índice escolar sozinho revela: o período menstrual das alunas, elas não estão vindo para a escola nessas datas porque estão menstruadas. “E isso significa que elas não estão seguras de virem à escola por falta de absorventes”, comentou.
Estava aí o cerne do problema que precisávamos conhecer para entender as causas da nossa maior questão, que era a evasão escolar. A partir desse fato, levamos para os docentes e apresentamos os nossos instrumentos que levantaram a questão e a suspeita da fase menstrual. Imediatamente a equipe de professores sugeriu dar para as alunas kits de materiais de higiene pessoal incluindo absorventes. O que parecia uma solução imediata, causava também uma preocupação de ter um efeito reverso, de afastar as alunas ao invés de trazê-las para a escola, garantindo suas frequências. Mesmo assim, seguimos a sugestão da equipe, apostando ser uma estratégia definida pelo coletivo e que levaria a um resultado positivo.
Falar de menstruação não é fácil e falar de menstruação em contexto de vulnerabilidade social é mais difícil ainda porque a pobreza menstrual, marcada pela falta de itens básicos de higiene pessoal no período menstrual é, sobretudo, um descortinador de todas as vulnerabilidades que submergem a intimidade da pessoa que menstrua. Como dizer para as alunas “eu sei do seu problema” sem expor sua intimidade e suas particularidades que nunca foram ditas por elas?
Estávamos diante de um dilema social, ético e financeiro, visto que os kits eram doações feitas pelos próprios professores e demais pessoas da comunidade escolar, incluindo porteiro e merendeira.
O dilema era social porque aquele levantamento era cada vez mais elucidado todas as vezes que fazíamos as leituras dos dados das alunas e comparamos com suas justificativas das faltas. Sempre havia explicações dizendo que faltaram às aulas por causa do trabalho das mães e o tempo dedicado a cuidar dos irmãos mais novos, ou ainda que faltaram por causa do período de abastecimento de água e as dificuldades de lavar as roupas, que estavam ajudando as mães nas funções de casa etc.
Era também um dilema ético, porque tínhamos o receio de falar abertamente sobre uma fragilidade do outro sem a devida permissão para abrir o que podemos chamar de “caixa de pandora”, se tratava de uma intimidade não dita, não aberta, não revelada, mas sim descoberta como uma hipótese que se configurava em um dado real a cada passo da nossa análise.
Decidimos entregar os kits de higiene pessoal como um ritual de busca ativa da aluna e em formato de presente. Inicialmente foram escolhidas 15 estudantes como público dos kits.
Convidávamos a aluna para conversar informalmente de maneira descontraída e livre. Falávamos de assuntos cotidianos da escola, como os materiais didáticos, atividades, as faltas nas aulas e dizíamos que estávamos sentindo falta dessa aluna na escola e em seguida eu informava que tinha recebido um presente de um doador e que gostaria de saber se aquela menina queria receber o presente, porque eu havia pensado nela para receber.
As meninas abriam os presentes e suas expressões de alívio e espanto é algo que não dá para descrever em palavras, era muito forte, muitas choravam – e eu chorava junto – muitas riam de alegria e outras diziam que não mereciam ser presenteadas com os kits montados com todo cuidado para não parecer invasivo ou desrespeitoso de suas histórias e trajetórias pessoais e íntimas. Nos kits colocávamos absorventes, sabonete, shampoo, creme de pentear, escova de dentes, creme dental, hidratante, perfume, desodorante, diversos ítens de maquiagem, um cartão de mensagem positiva e muito anseio da equipe escolar de que tudo desse certo.
Sempre após a entrega, eu informava que tinha outro presente para entregar a uma colega indicada por elas. Essa estratégia era usada para conseguir mapear outras alunas que passavam pela mesma situação e que não fora possível levantar seu perfil nos dados escolares apenas.
As entregas eram um espaço de presentear e sobretudo, de conquistar suas confianças, um espaço de trocas de experiências e informações que os dados numéricos não são suficientes para fazer o levantamento de trajetórias e histórias que intercruzam o ambiente escolar e que são carregados de significados e percepções únicos, que contam sobre vidas e suas pelejas para existir.
As entregas foram feitas dessa forma por anos, sempre como presentes e ampliando as meninas contempladas por meio da indicação de uma colega para outra também, assim passamos de 15 para 50 e fomos crescendo esse número até chegar em 250 alunas por mês. Toda doação e entrega feitas pela equipe escolar.
O banco de absorventes é uma ação pedagógica institucional de nossa escola, mas é também uma representação de como o servidor cortava na própria carne para garantir uma necessidade de política pública de dignidade menstrual como um direito humano de equidade de gênero.
Seguimos com as entregas sem revelar para ninguém o quão significativo era aquele movimento. Não existiam parceiros externos, não havia ação direta do poder público, não era contado sobre nada do nosso banco de absorventes que recebeu esse nome por causa desse movimento em que todos os servidores “depositavam” suas doações para montagem dos presentes, mas também porque nós depositamos nossas crenças de garantia da dignidade de centenas de meninas.
Em 2018, o projeto Flor de Lótus da professora Angela, de dança do ventre, se cruza com o banco de absorventes.
Todos os anos Angela monta um espetáculo de apresentações no teatro da cidade e transforma mulheres simples, violentadas e feridas em diversos aspectos, em bailarinas artistas em nível profissional. E propôs levar o projeto para a nossa escola. O critério para apresentar-se no espetáculo era as meninas não faltarem às aulas escolares e nem da dança.
Em uma das aulas, uma estudante de 10 anos informou à professora que não iria dançar naquele dia pois estava menstruada. Angela insistiu que ela fizesse a aula pois atividade física no período menstrual é saudável e não havia nenhum impedimento para dançar. A menina informou que estava com medo de se sujar e como isso iria repercutir negativamente entre os colegas da escola.
Para surpresa de Angela, a menina falou: “Eu não estou usando absorvente. Eu estou usando papelão”. Espantada com o que ela ouviu, Angela pediu permissão para publicar em suas redes sociais a nossa história, a nossa luta e o quão importante aquilo tudo representava para fomento de uma política pública nacional pelo direito de menstruar livremente e com dignidade.
É importante ressaltar que essa menina não estava no nosso radar de aluna-alvo para entrega dos kits pois a mesma não tinha problemas de frequência escolar.
Angela foi nossa porta-voz para o rompimento de nossas bolhas do medo, para a quebra do silenciamento de nossos paradigmas estigmatizantes de nós mesmos, ela nos deu a amplitude de entendimento de que precisávamos levantar o debate nacional por uma política pública de dignidade menstrual para pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Foi nosso megafone para dizer ao mundo que precisávamos de ajuda, de doações, mas definitivamente precisávamos de leis para efetivar e consolidar o banco de absorventes como uma política pública de ação permanente garantida pelo Estado. Ela nos abriu os olhos e as nossas mentes, usou seu prestígio artístico para reverberar o que estava acontecendo naquele ambiente escolar.
O banco de absorventes representa hoje o impulsionador das discussões sobre a política nacional de distribuição dos absorventes nas escolas públicas. É também exemplo de debate nacional da garantia de direitos humanos de menstruar com dignidade, é referência nas discussões sobre políticas públicas de saneamento básico e de como essa ausência afeta a vida de pessoas que menstruam e uma representação de como a união das forças de pessoas que acreditam no fazer a diferença podem contribuir para transformar vidas.
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Indicadores educacionais da escola municipal Cosme de Farias http://cdn.novo.qedu.org.br/escola/29175879-escola-municipal-cosme-de-farias

Quanta honra
Quanta honra compor este blog
a honra é nossa!! admiramos muito você e seu trabalho!