Como o ciclo menstrual afeta a saúde mental?

O ciclo menstrual é um processo biológico complexo que envolve flutuações hormonais (principalmente dos hormônios estrogênio e progesterona), que têm efeitos diretos no cérebro, modulando neurotransmissores essenciais para o humor, o comportamento e o bem-estar. E, apesar de fazer parte da fisiologia natural de grande parte da população, segue sendo, até hoje, um dos processos biológicos menos compreendidos e mais cercados de tabus, tanto por quem o vive quanto por profissionais de atenção à saúde. 

Cada novo ciclo tem início no primeiro dia de menstruação. Nesse momento, os níveis tanto de estrogênio quanto de progesterona estão baixos.

Conforme nos afastamos da menstruação e nos aproximamos da ovulação, o estrogênio aumenta gradualmente. Esse hormônio está associado a um aumento na serotonina, neurotransmissor que ajuda a regular o humor e traz sensação de prazer e estabilidade emocional. Ao mesmo tempo, a dopamina (ligada à motivação, foco e recompensa) também tende a subir, favorecendo energia, concentração e desempenho cognitivo.

Depois da ovulação, ocorre uma alternância hormonal importante: os altos níveis de estrogênio dão lugar ao aumento da progesterona, que tem efeito sedativo sobre o cérebro, modulando receptores de GABA, neurotransmissor responsável por diminuir a ansiedade e acalmar a atividade cerebral. Porém, em mulheres com sensibilidade neurobiológica maior, essas flutuações podem acabar gerando alterações mais intensas de humor, irritabilidade, ansiedade e mudanças na forma de perceber e reagir ao mundo.

Para muitas mulheres, as mudanças causadas pelas oscilações hormonais cíclicas são suaves, enquanto que para outras, podem vir acompanhadas de uma montanha-russa emocional. Compreender esses ritmos é essencial para interpretar melhor as nossas emoções e acolher o corpo e a mente durante o ciclo, reconhecendo que cada fase pode moldar a nossa experiência emocional e cognitiva.

E, nesse sentido, cresce cada vez mais a necessidade de compreendermos quem são as pessoas com maior sensibilidade a essas flutuações e como acolhê-las da melhor forma. A ideia desse texto é resumir um pouco do que a ciência já sabe sobre essa relação, sem patologizar o corpo feminino, mas trazendo clareza e informação de confiança para que possamos nos compreender mais profundamente. 

Relação entre sintomas psiquiátricos e ciclo menstrual

Uma das pesquisas mais robustas que temos sobre o tema até o momento é uma meta-análise publicada em 2019 por Jang e Elfenbein, que reuniu dados de 32 estudos com mais de 4 mil mulheres.

Eles encontraram um padrão claro: a fase menstrual e a pré-menstrual são os momentos com maior risco de piora na saúde mental. Os sintomas mais comuns incluíram:

  • Tristeza, apatia ou sintomas depressivos
  • Ansiedade e tensão
  • Irritabilidade e mudanças bruscas de humor
  • Sintomas relacionados ao estresse
  • Aumento de ideação suicida ou comportamentos autolesivos

Isso não significa que toda mulher vai passar por isso, mas indica que há um padrão populacional estabelecido e que isso deveria entrar na conta de intervenções no âmbito da saúde mental.

E esse estudo nos leva a outra conversa essencial: quando a fase pré-menstrual é algo maior que uma simples “tensão cíclica”?

TDPM – Transtorno Disfórico Pré-Menstrual

O TDPM se caracteriza por um conjunto de sintomas emocionais e físicos intensos que aparecem sempre na fase lútea, ou seja, entre uma e duas semanas antes da menstruação, e melhoram rapidamente assim que o sangramento começa. Diferente da TPM comum, o TDPM interfere de forma significativa no dia-a-dia: impacta a vida social, o desempenho no trabalho e os relacionamentos, tornando esse período do ciclo especialmente desafiador.

Os sintomas emocionais centrais incluem:

  • Mudanças de humor intensas
  • Irritabilidade marcante (muitas vezes o sintoma principal)
  • Ansiedade acentuada
  • Humor deprimido
  • Dificuldade em sentir prazer nas coisas que normalmente gostaríamos

O TDPM é reconhecido como uma condição de saúde mental e está incluído tanto no DSM‑V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição) quanto no CID‑11 (Classificação Internacional de Doenças, 11ª revisão). O DSM‑V é um manual amplamente utilizado por profissionais de saúde mental para diagnosticar transtornos psiquiátricos, fornecendo critérios detalhados e padronizados. Já o CID‑11, publicado pela Organização Mundial da Saúde, é uma classificação internacional de doenças que abrange não apenas transtornos mentais, mas todas as condições de saúde, servindo como referência global para estatísticas, diagnósticos e políticas de saúde.

O que as pesquisas recentes vêm mostrando é que, em mulheres com TDPM, há uma desregulação na maneira como o cérebro responde às oscilações hormonais, criando o que é chamado de sensibilidade neurobiológica. 

Biologia ou cultura? Ou as duas coisas?

A frase frequentemente citada na literatura é:

“Esses achados fornecem espaço para especular que as flutuações nos níveis hormonais podem influenciar os desfechos de saúde mental.”

E sim, é possível que exista um componente biológico forte, refletindo a sensibilidade do cérebro às oscilações hormonais ao longo do ciclo. Mas não podemos ignorar o papel do ambiente: a forma como a sociedade trata a menstruação – com silêncio, tabu, falta de suporte e sobrecarga emocional – pode amplificar ainda mais o impacto dessas flutuações.

No fim das contas, a experiência feminina provavelmente surge da interação entre biologia e cultura, mostrando que compreender e acolher a ciclicidade do corpo não é apenas uma questão de saúde física, mas também de saúde emocional e mental. Reconhecer essa conexão é um passo importante para oferecer suporte, empatia e autocuidado ao longo de toda a vida de pessoas que menstruam.

Referências

  • Jang, D., & Elfenbein, H. A. (2019). Menstrual cycle effects on mental health outcomes: A meta-analysis. Archives of Suicide Research, 23(2), 312–332. https://doi.org/10.1080/13811118.2018.1430638 
  • Reilly, T. J., Sagnay De La Bastida, V. C., Joyce, D. W., Cullen, A. E., & McGuire, P. (2020). Exacerbation of Psychosis during the Perimenstrual Phase of the Menstrual Cycle: Systematic Review and Meta‑analysis. Schizophrenia Bulletin, 46(1), 78–90. https://doi.org/10.1093/schbul/sbz030
  • Osianlis, E., Thomas, E. H. X., Jenkins, L. M., & Gurvich, C. (2025). ADHD and sex hormones in females: A systematic review. Journal of Attention Disorders, 29(9), 706–723. https://doi.org/10.1177/10870547251332319
  • Ellis, R., Williams, G., Caemawr, S., Craine, M., Holloway, W., Williams, K., Shaw, S. C. K., & Grant, A. (2025). Menstruation and autism: A qualitative systematic review. Autism Adulthood. Advance online publication. https://doi.org/10.1089/aut.2024.0307

 

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