Quando o menstRUA foi criado, o nosso objetivo era simples e urgente: distribuir absorventes para pessoas em situação de rua no centro de Manaus/AM.
Minha trajetória com o trabalho social começou muito antes do projeto. Sempre atuei como voluntária em iniciativas voltadas à população em situação de rua, um grupo historicamente invisibilizado, apesar de ocupar diariamente os espaços da cidade. Foi participando dessas ações que, pela primeira vez, me deparei com uma realidade que passa despercebida para muita gente: inúmeras pessoas que menstruam não têm acesso a absorventes e muitas delas vivem em situação de rua.
Esse contato direto com as ruas despertou em mim o desejo de compreender melhor o que estava por trás daquela ausência tão básica. Foi assim que comecei a estudar e refletir sobre a pobreza menstrual, um problema estrutural que envolve não apenas a falta de produtos menstruais, mas também a ausência de informação, de políticas públicas e de condições mínimas de dignidade. Ainda assim, a história do menstRUA não começou exatamente ali.
O projeto nasceu em 2020, em meio à pandemia da COVID-19, um período marcado por incertezas, mas também por profundas transformações pessoais. Naquele ano, eu decidi fazer uma transição de carreira: interrompi um mestrado em Administração e iniciei minha formação como desenvolvedora de software. Ao final do curso de programação, precisei desenvolver um site com temática livre. A ideia veio quase de imediato: criar um site informativo sobre pobreza menstrual.
O plano inicial era reunir informações sobre o tema, divulgar projetos que já atuavam no Brasil, indicar filmes e séries relacionados à pauta e dar visibilidade a pessoas e iniciativas que lutavam pela dignidade menstrual. No entanto, durante a fase de pesquisa, percebi algo que mudaria completamente o rumo daquele trabalho.
Ao buscar referências em sites, jornais e redes sociais, notei que não existiam — ou ao menos não eram visíveis — projetos que trabalhassem a dignidade menstrual com pessoas em situação de rua em Manaus. Diante disso, senti que precisava ir além da pesquisa online. Fui às ruas, conversei com mulheres, ouvi relatos, conheci histórias e compreendi, de forma ainda mais profunda, a dimensão do problema na cidade.
O impacto dessa constatação foi tão grande que a ideia de um site informativo já não parecia suficiente. Foi então que decidi criar o menstRUA e o site sobre ele. Mobilizei amigos, criei perfis nas redes sociais, abri um formulário para voluntários e, em setembro de 2020, realizamos a primeira ação do projeto.
Inicialmente, o nosso foco era exclusivamente a população em situação de rua. Contudo, com o tempo, o projeto ganhou força, visibilidade e novas parcerias, o que possibilitou a ampliação da atuação. Passamos a desenvolver ações também em comunidades periféricas e em escolas, adaptando nossas estratégias às diferentes realidades encontradas.
Desde o início, o menstRUA se construiu a partir de um território específico: a Amazônia. Atuar em Manaus e em comunidades amazônicas significa lidar com desigualdades históricas, desafios de acesso a políticas públicas, contextos urbanos e periféricos marcados por vulnerabilidades sociais e pela ausência do Estado. Pensar a dignidade menstrual na Amazônia é também reconhecer que o território importa e que as experiências de quem menstrua aqui são atravessadas por questões sociais, ambientais, econômicas e culturais próprias da região.
Ao longo dessa trajetória, aprendemos muito, especialmente nos primeiros momentos, quando tudo ainda era novo. Nas ações de rua, por exemplo, percebemos rapidamente que não bastava doar absorventes: muitas pessoas que menstruam sequer possuíam peças íntimas, um item básico e indispensável. Já nas comunidades, tornou-se evidente a necessidade de ir além da entrega dos kits menstruais, incorporando atividades de educação em saúde menstrual, diálogo e conscientização.
Essa vivência despertou em mim a necessidade de aprofundar meus próprios conhecimentos sobre menstruação. Foi então que iniciei o curso “Educação Menstrual pelo Mundo”, uma parceria entre a Herself Educação Menstrual e a Escuela de Educación Menstrual Emancipadas, tornando-me Educadora Menstrual — um passo fundamental para qualificar ainda mais as ações do projeto.
Atualmente, além da distribuição de kits e da promoção de educação menstrual, o menstRUA também atua por meio do que chamamos de ativismo menstrual. Essa frente busca chamar atenção para a causa, provocar reflexões e sensibilizar a sociedade. Nossas ações de ativismo incluem lambe-lambes espalhados pela cidade, adesivagens em bares e projeções em prédios. Paralelamente, com o mesmo objetivo de dar visibilidade ao tema e ao projeto, participamos frequentemente de entrevistas em rádios, TVs e podcasts, além de feiras, eventos e congressos.
Hoje, o propósito do menstRUA vai muito além de distribuir absorventes. Nosso compromisso é com a dignidade, o conhecimento, o cuidado, o afeto e a justiça social para todas as pessoas que menstruam.
Ao longo de mais de quatro anos de atuação, o menstRUA já distribuiu 2.497 kits menstruais, mais de 7.500 pacotes de absorventes, realizou 56 ações de distribuição, promoveu 33 atividades voltadas à pobreza menstrual e à educação em saúde menstrual, participou de 32 eventos e esteve presente em 39 comunidades. Embora nossa principal atuação seja em Manaus, já levamos ações a outras 10 cidades, não apenas no Amazonas, mas também no Rio Grande do Sul, São Paulo, Brasília e Mato Grosso do Sul.
Em 2026, seguimos na luta. Seguiremos acreditando no poder da transformação por meio do conhecimento, da escuta e do ato de doar. Para nos acompanhar e saber mais sobre o projeto, siga nossas redes sociais: @projetomenstrua

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